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No mundo contemporâneo, os relacionamentos são menos definitivos e as separações ficaram tão cotidianas... Mas ainda sempre muito doloridas. Diante da perda de algo ou alguém importante, impossível não sentir que “meu mundo caiu”.
Jacques Lacan ficou conhecido, e ainda assim é visto, como, talvez, o mais importante continuador de Freud, alguém que deu estatuto racional iluminista ao Inconsciente, desde sua famosa formulação do 'inconsciente estruturado como uma linguagem’. O que pouco, no entanto, se sabe é que nos últimos anos de seu ensino Lacan deu uma guinada de 180 graus em tudo o que tinha feito até então e, como se estivesse pensando contra si mesmo, propôs uma nova clínica, muito diferente da primeira e ainda a mais difundida, uma clínica própria a um homem que iria viver a crise de um mundo globalizado. A desestruturação das relações patriarcais exigiu uma clínica além do Édipo, na qual Freud não mais explica, Freud implica. É a psicanálise de um mundo novo e o que se faz hoje na clínica, à diferença do que se fazia antes, que iremos debater.
A proposição da conferência é de circunscrever as novas formas de subjetivação na atualidade, indicando os impasses do discurso psicanalítico de se confrontar com um mundo no qual o Estado perdeu o seu lugar de referência axial no espaço social, tendo como contrapartida a disseminação da economia neoliberal. A questão da autoridade paterna foi colocada na berlinda, de forma que o imaginário da barbárie se atualizou no espaço social. É nessa perspectiva que o Édipo como referencia ética foi colocada em questão.
Nas últimas décadas, valores antes subestimados passaram a ser apreciados. Haveria hoje, a partir de tais mudanças, um modo “masculino” de lidar com as relações, mais formal, mais responsável, e um modo “feminino”, que dá mais importância ao cuidado com o outro? A questão vai além do feminismo e seu debate é urgente nestes tempos de crises.
Depois de Freud, o psicanalista Jacques Lacan reivindicava sua filiação às Luzes, aquelas do século de Voltaire, chamado também de 'o século dos filósofos'. Entretanto, foi praticando a 'antifilosofia' que ele afirmava continuar o combate daqueles, contra todos os tipos de preconceitos. O que ele queria dizer com isso? Em que, e até que ponto, a 'antifilosofia' lacaniana se inspira no Iluminismo? E que luzes, por sua vez, nos traz hoje sua obra para analisar do que se trata no mal-estar ou na crise da civilização, a qual um J-J-Rousseau - antifilósofo esclarecido, mesmo não sendo o Doutor Lacan – já tinha recenseado com tanta lucidez, e encarnado até a loucura, alguns de seus sintomas?
Ilusões que se vão, prosperidade que se mostra oca podem trazer uma oportunidade importante: o que é viver melhor com menos, o que é evitar o consumismo e pensar num mundo mais sustentável?